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domingo, 15 de fevereiro de 2009

Diretório Brasileiro de Entidades de Adoção de Cães e outros Animais



Texto de André Masini

O companheiro ideal não se compra com dinheiro!

A idéia de se comprar um cão de raça, com pedigree, de um canil, pode parecer uma garantia de saúde ou de qualidades especiais, mas isso é um grave engano!

Muitas das raças de cães comercializadas no Brasil vêm apresentando crescente número de indivíduos com problemas, como transtornos de personalidade, doenças e debilidades congênitas, devido à consangüinidade.

Fazer um cão procriar é muito fácil, basta colocar um fêmea no cio junto com um macho. Por isso muitas pessoas completamente leigas têm a idéia de se dedicar à "criação" de cães, visando auferir lucro. Mas a questão é que a dedicação e o custo para se manter um cão bem tratado, alimentado, cuidado, sem parasitas ou doenças, e acima de tudo com carinho, são elevadíssimos! Apenas uma única dose mensal de remédio anti-pulgas de última geração custa de R$20,oo a R$40,oo dependendo do porte.

Não é possível obter lucro criando cães com todos os cuidados necessários!
Por isso os canis profissionais não têm outro remédio senão o "corte de despesas", e isso quase sempre significa animais com deficiências nutricionais, muitas vezes com sarnas ou outros parasitas, e com assustadora freqüência com algum problema ligado à consangüinidade.

É verdade que existem pessoas que podem ter predileção por alguma raça determinada, com suas características próprias (trata-se apenas de uma questão de gosto pessoal). Mas mesmo essas pessoas só estarão seguras se ganharem um filhote de algum amigo ou conhecido. Se buscarem um anúncio em jornal, mesmo de um canil grande e antigo, correm o risco de comprar um cão que não seja o que esperam, eu mesmo passei por essa experiência, ao adquirir um labrador de ótimo pedigree: ele é um animal bondoso a quem amo muito, mas sua personalidade está longe de ter a serenidade característica dos labradores que conheci há uns 25 anos.

Afirmo tudo isso não para demonizar os criadores. Certamente há criadores sérios, que foram levados a entrar nesse ramo movidos justamente por seu amor aos cães. Eu próprio, há muito tempo, exatamente por esse motivo, pensei em ser criador: criador de fox-paulistinhas. Mas bastou um mínimo de contato com a realidade "comercial" desse ramo, para eu perceber o imenso abismo que existe entre o ambiente caloroso de uma casa onde um cão é amado, e a frieza do mercado que os comercializa.

Das pessoas que procuram um criador de cães para comprar um filhote (seja em uma exposição ou por meio de um anúncio) poucas têm noção do trabalho e dos cuidados necessários para se manter um cão; e menos ainda escolhem uma raça por algum bom motivo. Algumas até se esquecem que o filhotinho vai crescer e se tornar adulto. E o triste resultado disso é que muitas vezes o cão acaba sendo indevidamente tratado, ou, pior ainda, abandonado pela pessoa que o comprou. (Certa vez eu escutei uma pessoa se "justificar" do abandono de um animal com a alegação de que ao crescer ele deixara de ser "tão bonitinho").

A verdade é que a criação de cães, como quase todas as atividades do mundo de hoje, passou a ser regida pela dita "lógica do mercado". E isso significa: criar a raça da moda (que por entrar na moda exige uma rápida multiplicação de matrizes, e por isso, inevitavelmente, consangüinidade).

A "lógica do mercado" também exige redução de custos, e assim os canis precisam se transformar em "fábricas de cães": fêmeas com ninhadas constantes, poucos gastos. O cão deixa de ser um amigo amado, e passa a ser um objeto.

Ao ponderar essas duas realidades, de um lado a frieza da produção em massa de animais para venda, e de outro abandono de animais por serem mestiços ou por serem adultos, perdi qualquer desejo de ser criador. Concluí que a maravilha da natureza que é a procriação desses animais amigos, torna-se algo triste nas mãos do ser humano.

Guarde seu dinheiro! Cão não se compra, nem se vende!

Antes de "comprar" um filhote, principalmente se for de uma "raça da moda", pense que, além de correr um sério risco de não obter o que imagina, você estará contribuindo para duas industrias perversas. Uma são as "fábricas de cães", a outra é o abandono, sofrimento e extermínio de animais mestiços e de raça, que não são desejados pelo "mercado". Essas duas "indústrias" são simbióticas, ambas crescem juntas e ambas devem ser combatidas juntas.

Existem no Brasil dezenas (talvez centenas) de Entidades do mais alto gabarito, dedicadas a cuidar de animais sem dono e prepará-los para uma adoção bem sucedida. Lá você vai encontrar pessoas interessadas não em seu dinheiro, nem em lhe "empurrar" um animal que não seja adequado às suas necessidades; mas pessoas altruístas, cujo único interesse é encontrar um animal perfeito para você e sua família, seja para ser companheiro de seus filhos, seja para guardar sua casa, ou para qualquer outra finalidade. Essas Associações possuem veterinários, adestradores, tratadores, gente que realmente ama e entende os animais. Lá não vale a "lógica do mercado", mas sim a "lógica do coração". Qualquer animal lhe será entregue tratado, vacinado, desverminado e, o que é mais importante, com a personalidade conhecida e estudada.

Nessas associações você encontrará animais de todas as idades e portes, inclusive filhotes.

Antes de "comprar" um filhote, não deixe de visitar uma dessas associações, e converse com uma das pessoas que se dedicam a elas, você certamente irá descobrir muitas coisas que nem imaginava, e terá a chance de passar a ser dono de um animal muito mais adequado a você e mais saudável do que o que obteria em um canil.

Pergunte a qualquer geneticista sobre o vigor híbrido!

Um cão mestiço é 99% das vezes mais vigoroso, mais resistente a doenças e menos sujeito a debilidades ou mal formações do que qualquer cão de raça. Isso porque a mestiçagem é o oposto da consangüinidade, ao invés das debilidades se multiplicarem, elas são anuladas pelos genes distintos. Essa mistura de genótipos tem até um nome: vigor híbrido. Esse fenômeno é conhecido há muito tempo pelos geneticistas.

Seja chic, desfile com um mestiço!

Nas últimas décadas, verificou-se na sociedade brasileira um grande aumento da sensibilidade das pessoas em relação à ecologia e ao respeito pelos outros seres vivos. Alguns hábitos mudaram. Qualquer tipo de desperdício que antes podia ser visto como sinal de opulência, hoje é visto como rudeza ou ignorância. A separação do lixo e a reciclagem eram algo impensável até meados do século XX, mas hoje são hábitos da maioria das famílias bem educadas. Da mesma forma, passear com um cão mestiço deixou de ser uma demonstração de "pobreza", e passou a indicar uma atitude de sensibilidade e responsabilidade pelos outros seres. O dono de um mestiço é uma pessoa que colabora para que menos animais sofram com o abandono.

O que pode ser mais chic do que passear com um cãozinho saudável e alegre, cheiroso, de pelos e unhas aparados, perfeitamente tratado e mestiço?

Morrer, dormir... talvez sonhar!




Os textos de André Carlos Masini são bem profundos, encontrei esse no site da Casa da Cultura (http://www.casadacultura.org/br/adocao_de_caes.html), na qual ele é Diretor Geral, vale a pena conferir.

"Era uma brilhante manhã de sol, e eu acabara de me sentar à mesa do café. A velha empregada aproximou-se com olhar triste, meia sem jeito, e contou-me que na calçada, diante de nosso portão, havia um cãozinho caído.

Corri para o portão, e lá estava ele. Era um Fox Paulistinha, minha raça favorita. Respirava com dificuldade e não esboçava qualquer reação ao ser tocado. Exibia pavorosos sinais de maus-tratos, que prefiro não descrever.

Entrei e liguei para o veterinário. Ao voltar ao portão, encontrei duas crianças: uma menina de uns 9 anos e um menino de uns 6. Estavam sérios, com os olhos tristes fixos no bichinho. Arfavam, como se suas respirações pesadas ajudassem o corpo cansado do animalzinho a continuar respirando. A presença delas ali foi para mim um grande alívio.

É surpreendente como, nas questões realmente essenciais da vida, coisas terrenas como força, poder, idade, e intelecto revelam-se insignificantes... A companhia daquelas crianças, em toda sua fragilidade, teve mais valor para mim do que se lá tivessem estado presidentes, reis, cientistas, ou gênios da literatura.

Tem gente que pensa, nestes tempos materialistas, que solidariedade significa gente rica dar coisas para gente pobre. Mas solidariedade é muito mais: uma imensa força da natureza humana, que pode ser o bálsamo para as mais profundas e mais essenciais feridas da alma. Muitas vezes, o único bálsamo...

Na calçada estávamos eu, o cãozinho e as duas crianças...
O veterinário chegou, fez um breve exame no bicho, e, discretamente, deu-me a entender que o caso era sem remédio...

Olhei para as crianças num dilema: elas haviam escolhido estar ali e tinham absoluto direito de saber a verdade. Mas eu era um estranho para elas, e revelar-lhes cruamente o terrível ato que iria ocorrer, talvez fosse rude demais...
Acabei pedindo que fossem chamar sua mãe... que ela poderia ajudar, etc... Elas partiram correndo.

O cãozinho estava muito mal, já havia sofrido terrivelmente e era quase um milagre que ainda estivesse vivo, que tivesse conseguido andar até ali.. Ele havia gastado suas últimas forças, seus últimos instantes, sua última intuição... para chegar ao meu portão, à minha casa...
O veterinário foi claro: não havia nada a fazer senão sacrificá-lo e abreviar sua agonia.

Pegamos o cãozinho e o colocamos no carro. Quando íamos partir, as crianças reapareceram, num carro, com sua mãe, trazendo dois potinhos de plástico com comida e água. Eu disse que o estávamos "levando", sem maiores explicações. Despedi-me com um sorriso amarelo, e nunca mais as vi. Guardo delas uma lembrança afetuosa, de respeito e solidariedade.

Vida, morte... chegadas, partidas...

Vinte anos antes, em um dia ensolarado como aquele, eu pousara no aeroporto de Quito, no Equador. Fora para trabalhar, mas chegara como quem cai do céu, como uma criança que nasce para um mundo novo. Tudo era novidade: a língua, os costumes, as cidades, a selva. Aos poucos fui conhecendo aquele estranho mundo, e ele se foi tornando meu lar, minha vida.
Após um ano de intenso trabalho, eu estava tão habituado com aquela vida, que parecia ter estado ali desde o início dos tempos.

Depois, em uma nova manhã ensolarada, eu e outro geólogo voltamos àquele aeroporto para nos despedirmos de nosso mentor, o "velho professor". Num instante ele estava ali, como "sempre" estivera, e no instante seguinte havia partido, para sempre.

Voltei do aeroporto em silêncio, olhando pela janela do ônibus. O dia continuava ensolarado, e a cidade continuava igual, mas o professor já não estava lá para ver nada daquilo...

Subitamente me dei conta de que em breve eu próprio partiria, e também não estaria mais ali, e que aquelas ruas e casas e selvas tão familiares, aquela "minha vida", passariam a ser apenas lembranças.

Partidas... morte...

O veterinário aplicou a injeção no coração do cãozinho.

Em seu instante final, ele saiu do torpor em que estava, enrijeceu-se e chorou alto, com profundos e sentidos soluços que jamais esquecerei... a impressão que tive foi que, apesar de todos sofrimentos que padecera, ele lamentava partir desta vida... A tristeza e a intensidade daquele momento foram imensas. Em minha alma ficou gravada, para sempre, a idéia do apego que o cachorrinho tinha à vida.

Morrer, dormir... talvez sonhar...

Não sei se ele levou lembranças... mas para ele essa dúvida já não importa nem causa angústia.

A morte faz parte da vida, parte dessa imensa e maravilhosa unidade que é a natureza. Não há outra atitude razoável senão aceitar e respeitar a morte, seja lá o que ela for. E para nós que ficamos, resta o bálsamo da solidariedade.

Voltei para casa. O dia continuava brilhante e ensolarado, e todas as coisas permaneciam como antes: o portão, a calçada, o mundo... mas o cãozinho já não estava mais aqui para ver tudo isso."


O objetivo desse texto poderia ser apenas um reflexão sobre a vida e a morte, mas é mais que isso.

Quando vi aquele heróico cachorrinho - mesmo irremediavelmente doente e em imenso sofrimento - chorar e soluçar por ter que deixar este mundo, não pude deixar de pensar nos milhares de outros, que gozam de plena saúde, mas que são friamente assassinados em nosso nome, por entidades do Estado Brasileiro, a cada semana.

Essa foi a herança que o cãozinho deixou: um grito de alerta para que nós, humanos, compreendamos a imensa brutalidade que é essa matança.

Os cães são os maiores companheiros e o maior presente que a natureza nos deu. Eles nos amam incondicionalmente, sua fidelidade é sólida como as mais profundas fibras de suas almas de heróis (que sacrificam sem hesitação suas vidas para defender seus donos), sua alegria e seu carinho são lições que a cada dia nos ensinam a ser melhores e a viver melhor...

Não tenho idéia de o que fizemos para merecer tamanho presente...
Deveríamos agradecer a Deus e à natureza esse presente, e mostrar permanente respeito e carinho por esses seres infinitamente alegres e amigos, e que amam tanto a vida, e que a cada dia nos ensinam a amá-la também.

Mas, ao invés disso, criamos "centros de controle de zoonoses", as malfadadas "carrocinhas", que capturam os cães pelas ruas e os assassinam com bestial frieza!

Às vezes eu penso: o que, afinal, nossa espécie está fazendo na Terra? aonde queremos chegar? Não nos contentamos em estar destruindo cada um dos ecossistemas do planeta, não nos contentamos em nos comportar como verdadeiros playboys mimados, que - sem qualquer consciência ou segundo pensamento sobre o fato de existirem outros seres - dilapidamos a herança que a natureza nos deu, numa verdadeira orgia de inconseqüência. Não. Além disso tratamos nossos melhores amigos, os cachorros, como se fossem resíduos descartáveis, não seres brilhantes e repletos de vida.

Vi outro dia na TV um certo professor da USP afirmando que a hostilidade da população contra a carrocinha é devida à "ignorância", pois a população não sabe que os cães podem (sic) "causar doenças".

Pobre criatura vaidosa. Do alto de seu pedestal, ele nem sequer cogita a hipótese de que o ignorante possa na verdade ser ele próprio. A tal "população", as pessoas, podem perfeitamente saber da possibilidade de um cão transmitir uma doença --bem como da possibilidade de outro ser humano transmitir uma doença -- mas nem por isso precisam acreditar que se deve sair por aí praticando extermínios.

O sábio professor nem percebe que seu raciocínio brota do mesmo campo de onde brotaram as maiores monstruosidades da história humana. A mente dissociada do coração é um mecanismo defeituoso e pervertido, que pode levar para absolutamente qualquer direção e fazer estragos sem qualquer limite. Não existe nada mais ignóbil do que a pseudo-sabedoria, que tenta mostrar a "lógica" de atos monstruosos através de argumentos "científicos", mas sem discutir os aspectos éticos da questão.

A solução para o problema da carrocinha, porém, não é de modo algum hostilizar os funcionários da carrocinha, muitos dos quais também sofrem com a matança dos animais. A solução é exigir dos políticos que a matança seja proibida por lei, e seja substituída por programas de esterilização e adoção, como muitos que já existem em curso.

Texto de André Masini.
O autor é Escritor, Auditor Fiscal da Receita Federal
e Diretor Geral da Casa da Cultura.