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segunda-feira, 3 de agosto de 2009



Pretinho

Toda noite é a mesma coisa!
Com lua cheia ou com chuva, lá vai Pretinho perambulando pelas ruas desertas...
Ele é da noite!
Gosta das madrugadas, tanto faz se escuras ou estreladas.
De repente aparece Pretinho esbanjando charme e glamour não sei pra quem! Talvez para algumas gatas pingadas que também adoram andar no escuro.

Eu também gosto da noite, da noite eu sou e assim como Pretinho trocaria o dia pela noite e também, assim como ele, gostaria de passar o tempo inteiro me espreguiçando numa poltrona gostosa e macia.

A garoa começa e eu, mais uma vez, gente da noite, olho pela janela do meu primeiro andar e Pretinho aparece, atravessando a rua, nariz empinado, pingos de chuva molhando-lhe o corpo gordo e peludo.

Pretinho é o gato da Dona Arlete, uma senhora de meia idade que mora ao lado da minha casa.

Ela me confessou uma vez que Pretinho é o seu xodó e que ele tem uma poltrona especial na sala de estar.

“O danado só come bife mal passado!”

Agora descobri de onde vem tal rompante!

Pretinho só faz o que quer!

Dona Arlete acostumou-o muito mal, fazendo-lhe suas vontades e deixando-o livre para bater pernas pelas ruas do bairro.
Mas como se faz para prender um gato? Amarrando-lhe ao pé da mesa? Claro que não! Esses bichos nasceram para a liberdade e com Pretinho não seria diferente.

Desconfio que com o amor acontece o mesmo.
Às vezes queremos prendê-lo, sabendo que o seu desejo mais ardente é a liberdade. Pura liberdade e nada mais.

É assim que funciona as coisas, se deixarmos livre ele vem correndo, se prendermos ele escapa da gente, igualzinho a areia da praia que desliza entre os dedos quando a apertamos demais.

E o Pretinho? Esse gato danado de olhos de gude não deixa ninguém chegar perto, a não ser a sua protetora, Dona Arlete.
Ela é uma viúva de 62 anos, três filhos grandes e já de vidas feitas, moram fora. Vive com o neto, o João, mas Pretinho é realmente o chamego da casa!

Um dia ela me disse que tem medo de suas saídas, por ser um persa todo preto, sem uma única manchinha pra “manchar” o negrume do seu pêlo fofo e aveludado, teme que ele vá e não volte mais, seja por seqüestro ou por um acidente qualquer.

- Essa rua que a gente mora é muito movimentada, minha filha. Passa carro toda hora!

Dizia, toda preocupada.

Certa vez presenciei um acidente quase que fatal do pobre e formoso felino. Acredito que nessa hora Pretinho perdeu uma das suas sete vidas. Mas graças a Deus saiu são e salvo!

O negócio foi o seguinte: Final de expediente de uma sexta-feira, avenida movimentada e Pretinho do nada aparece na frente de uma moto. O piloto freou bem em cima do bichano que escapou por pouco. Mas nessa escapadela caiu embaixo de um fusca azulado que vinha na toda em direção contrária. Pretinho levou um trompaço tão grande que por sorte não foi esmagado pelos rodões do fusca 74.

Sorte essa que não permitiu que ele perdesse nem uma das suas vibrissas, embora nessa hora esses pêlos sensoriais não o alertou para o eventual perigo. Até parece que servem somente para enfeitar a sua cara de gato!

Confesso, gritei naquela hora! Caso acontecesse alguma coisa com o bichano eu iria sentir muito. Sou chegada a bichos, cachorros principalmente, gatos nem tanto, soltam pêlos e mijam em qualquer lugar. Mas meu apego com Pretinho vem de longe, desde que mudei pra essa rua. Olhos claros me encantam!

Eu, ele e a noite, madrugadas a fio, acordados.
Eu, trabalhando um pouco, fazendo pesquisas, arrumando papéis e Pretinho desfilando todo faceiro pela rua silenciosa em busca de novas aventuras. Acho que somos mesmo cúmplices da noite! Ela nos entende e nos embala com seus braços aconchegantes. Braços de mãe que cuida do filho com todo cuidado e carinho.

E é bem assim que também agimos quando apaixonados estamos. Queremos colocar no colo, ninar e acarinhar o amor verdadeiro.
Eu, ele, ela. Um triângulo amoroso com final feliz!

Luciane Santos.

II

Eu continuo criança
E já não sei se é bom ou ruim correr descalça na chuva
Ficar molhada da cabeça aos pés
Sorrir feito boba
E chorar quando te tiram algo...

E pensar que ele continua por aí fazendo estripulias feito um menino travesso,
varando noites e mais noites a fio,
com olhar de farol de carro reluzente.

E como seres da noite
Vivemos numa busca incansável
pelo silêncio, pela solidão, por mais aventuras.
Mas um dia desses encontrei Pretinho em plena luz do dia,
seus olhos verdes fitaram no meu olhar de jabuticaba.

Ele saía de detrás de um carro, acredito que nessa hora já havia pulado o muro da vizinha que dá direto pra rua.
O bichano tava todo desconfiado, com um pobre passarinho na boca.
Caminhando lentamente, andando abaixadinho
e achando que ninguém o veria.
E olha quem ele encontra de cara?
Eu, logo eu, sua sombra perfeita...
Vigio pretinho com olhos de lince, onde quer que ele vá, sempre o encontro.
Nem sei se ele sabe disso
Talvez sinta a minha presença,
Perceba que alguém lhe segue de longe,
Olhar atento, filmando tudo,
Cada passo, cada movimento...
Acho que a nossa história de amor continua
Talvez até um amor platônico, da minha parte, claro
Eu, ele, eu, nele...

Mas o amor é isso
Mesmo dizendo que não, queremos possuir,
disfarçadamente possuir,
aconchegar e cuidar.
Mas Pretinho, amante da liberdade prendeu um passarinho
entre suas garras afiadas.
O que é isso Pretinho?

O pobre canário ainda com vida, tentava escapulir da boca peluda de Preto, seus bigodes faziam cócegas e o cantarolante se debatia todo.
Quanto mais tentava fugir, mais ele o apertava.

E não é que esse tal de amor pega a gente também de surpresa?
E do nada acabamos abraçados, trancafiados, apertados por ele.
E como um dia disse Drummond:
O amor é bicho instruído, o amor pulou o muro, o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar...Eta bicho danado esse tal de amor!


Luciane Santos

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Dona Cotinha



Já perdi às contas de quantas vezes me encontrei com Dona Cotinha!

Nossos encontros são sempre na “boca” da noite quando faço meu passeio diário com meus dois cães.

Quando dou por mim, lá se vem Dona Cotinha, toda “envergada”, se esquilibrando em sua mão direita sobre as costas, até parece que está andando em uma corda bamba!

Deve ter uns noventa e tantos anos, é o que aparenta.

Nessa idade Dona Cotinha já sofre do famoso “encolhimento” que ocorre com as pessoas idosas, é uma diminuição da estatura, indicada pelo aumento dos braços em relação ao corpo.

Vestido comprido, feito de um madrasto todo estampado, chinelos de arrasto, cabelos cobertos pelo véu banco do tempo, presos com um coque no alto da cabeça.

E se arrasta descendo a ladeira, sempre com uma bíblia preta embaixo do braço, deve ser crente e vem fazer visitas pra uma vizinha que também é da mesma igreja.

Quando chega se dependura no portão e fico morrendo de medo que ela escorregue e se machuque.

E penso: Se eu tivesse uma velhinha dessa em casa não deixaria sair sozinha nunca, isto é um perigo!

Mas logo depois me pergunto: E tem jeito pra velho? Eles não aceitam que se tornaram crianças novamente, ou por sua vez querem fugir da solidão e não suportam o fato de ficarem sentados em suas cadeiras de balanço vendo TV ou fazendo tricô. Certo eles!

Com Dona Cotinha acontece o mesmo e prefere andar no asfalto, no meio da rua, a andar pelas calçadas, deve ter medo de meter o pé num buraco daqueles e se desmanchar toda no chão.

Conheço um pouco de Dona Cotinha, mas muito pouco!

Das vezes que a encontrei, ou ela me pede ajuda ou ofereço minha mão pra ela se apoiar quando sobe ou desce a ladeira.

Ela mora no início da rua, lá em cima, ainda tem marido, nem sei o nome dele, mas o vejo todo santo dia sentadinho na porta, olhando o movimento.

O marido de Dona Cotinha parece ser mais “durinho” do que ela. É um velhinho bonito e bem cuidado, cabelos brancos, barba bem feita, roupa limpa e olhar distante.

Às vezes passo por lá e fico me perguntando o que será que ele anda pensando tanto...

Será que sente saudades dos velhos bons tempos?

Será que agradece a Deus por ter vivido até hoje?

Ou já se sente velho e cansado das agruras da vida?

Bem, não sei ao certo e ainda não tive coragem de perguntar.

Hoje, mais uma vez, encontrei Dona Cotinha.

Era um final de tarde de um domingo bem agradável.

Naquela hora ela não estava com a bíblia embaixo do braço, deveria estar, por ser domingo, dia do Senhor, mas ainda era cedo para isso, o culto seria mais tarde, certamente.

Fui fazer meu passeio de todos os dias com os cachorros e a encontrei, se arrastando pela calçada, já ia subindo a ladeira, voltando pra casa.

Eu, como sempre, ofereci o meu braço pra ela se apoiar.
Ela também, como sempre, aceitou, e agradeceu dizendo:

- Obrigada minha filha, Deus te abençoe, Jesus te ama!

Dona Cotinha sempre falava isso pra mim, toda vez que a gente se encontrava nessas idas e vindas...

E eu, confesso, sou apaixonada por velhinhos indefesos que andam pela rua com medo de cair!

Depois de descer a calçada ela soltou da minha mão, mas em seguida, pegou novamente.

De um lado, Dona Cotinha, do outro, segurava as duas coleiras dos cachorros, tudo com muito cuidado. Já pensou se tropeço e derrubo Dona Cotinha? Seria um horror! Não me perdoaria nunca!

Seguimos o itinerário e continuamos a conversa.

_ Minha filha, você sai todos os dias com esses cachorros né?

- Sim, todos os dias!

- Minha filha, você é paciente?

- Sim, sou paciente.

- E eles dão muito trabalho? Eu já tive um cachorro, mas isso foi há muito tempo atrás, hoje em dia não tenho como cuidar mais...

- É verdade, hoje em dia a senhora precisa é de cuidados! E eles não dão muito trabalho.

- E você é paciente? Insistiu Dona Cotinha mais uma vez.

Eu respondi. – Sim, sou paciente.

E ela continuou...
– É isso mesmo minha filha, quando a gente gosta de alguma coisa, ou de alguém, ou até mesmo de um bichinho desse, a gente tem que se doar, tem que ser paciente, abrir mão de muitas coisas e se dedicar a tudo aquilo que a gente ama.

E eu consenti com a cabeça.

Aos seus noventa e tantos anos de idade, Dona Cotinha era uma sábia, falava pouco mas o que falava era de uma inteligência enorme, coisas vividas, experimentadas e lembradas ao longo de sua existência.

E naquele curto percurso Dona Cotinha continuou e mais uma vez perguntou.

- Minha filha, você é paciente?

E mais uma vez eu respondi que sim, que era paciente e que gostava dos cães.

Ao nos aproximamos de sua casa ela me disse.

- Olhe minha filha, eu moro ali e aquele sentado na porta é meu velho.

Então foi a minha vez de perguntar.

- A senhora mora sozinha com ele?

Dona Cotinha não respondeu, não sei se porque não quis, ou por não ter ouvido mesmo.

Talvez tenha ficado desconfiada com uma pergunta dessa e não é para menos.

Imagine dois velhinhos morando sozinhos em uma casa, é um verdadeiro perigo!

Fiz de conta que não percebi a sua falta de resposta. Fiquei calada e chegando à porta da sua casa ela soltou da minha mão depois que subiu na calçada e me disse.

- Muito obrigada menina, Deus te abençoe e te dê um bom casamento.

Logo depois o seu marido também me agradeceu e eu apenas sorri e continuei o meu passeio, sempre olhando para trás e vendo aquele casal de velhinhos, conversando na porta, ela já toda curvada pelo peso da idade, tentando subir no batente e ele sentado neste mesmo umbral, cabelos esbranquiçados e olhar distante, como de costume.

Fiquei imaginando como seria viver tanto tempo assim...

E o amor, o cuidado, a dedicação, a cumplicidade que um tem para como o outro?

E depois pensei, será por que Dona Cotinha sempre me perguntava se eu era paciente e em seguida me desejou um bom casamento?

Talvez esse seja o segredo para uma boa convivência e para a felicidade: a paciência...

Paciência, capacidade de suportar com nitidez os problemas da vida e inteligência para agir em qualquer situação.

Tem que haver confiança, maturidade, cuca fresca, caminhando lado a lado, oferecendo o ombro pro outro se apoiar, dando à mão a palmatória, às vezes, diferentemente da paciência do jogo de cartas, onde só se pode jogar uma pessoa, ou se ganha ou se perde, porém sozinha, sempre.

É... realmente Dona Cotinha é uma velha sábia.

Falou sobre uma coisa, querendo me dizer outra.

Que sejam felizes para sempre, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, com paciência sempre, até que a morte o separe!


Lu Santos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Pretinho



Toda noite é a mesma coisa!
Com lua cheia ou com chuva, lá vai Pretinho perambulando pelas ruas desertas...
Ele é da noite!
Gosta das madrugadas, tanto faz se escuras ou estreladas.
Derrepente aparece Pretinho esbanjando charme e glamour não sei pra quem! Talvez para algumas gatas pingadas que também adoram andar no escuro.

Eu também gosto da noite, da noite eu sou e assim como Pretinho trocaria o dia pela noite e também, assim como ele, gostaria de passar o tempo inteiro me espreguiçando numa poltrona gostosa e macia.

A garoa começa e eu, mais uma vez, gente da noite, olho pela janela do meu primeiro andar e Pretinho aparece, atravessando a rua, nariz empinado, pingos de chuva molhando-lhe o corpo gordo e peludo.

Pretinho é o gato da Dona Arlete, uma senhora de meia idade que mora ao lado da minha casa.

Ela me confessou uma vez que Pretinho é o seu xodó e que ele tem uma poltrona especial na sala de estar.

“O danado só come bife mal passado!”

Agora descobri de onde vem tal rompante!

Pretinho só faz o que quer!

Dona Arlete acostumou-o muito mal, fazendo-lhe suas vontades e deixando-o livre para bater pernas pelas ruas do bairro.
Mas como se faz para prender um gato? Amarrando-lhe ao pé da mesa? Claro que não! Esses bichos nasceram para a liberdade e com Pretinho não seria diferente.

Desconfio que com o amor acontece o mesmo.
Às vezes queremos prendê-lo, sabendo que o seu desejo mais ardente é a liberdade. Pura liberdade e nada mais.

É assim que funciona as coisas, se deixarmos livre ele vem correndo, se prendermos ele escapa da gente, igualzinho a areia da praia que desliza entre os dedos quando a apertamos demais.

E o Pretinho? Esse gato danado de olhos de gude não deixa ninguém chegar perto, a não ser a sua protetora, Dona Arlete.
Ela é uma viúva de 62 anos, três filhos grandes e já de vidas feitas, moram fora. Vive com o neto, o João, mas Pretinho é realmente o chamego da casa!

Um dia ela me disse que tem medo de suas saídas, por ser um persa todo preto, sem uma única manchinha pra “manchar” o negrume do seu pêlo fofo e aveludado, teme que ele vá e não volte mais, seja por seqüestro ou por um acidente qualquer.

- Essa rua que a gente mora é muito movimentada, minha filha. Passa carro toda hora!

Dizia, toda preocupada.

Certa vez presenciei um acidente quase que fatal do pobre e formoso felino. Acredito que nessa hora Pretinho perdeu uma das suas sete vidas. Mas graças a Deus saiu são e salvo!

O negócio foi o seguinte: Final de expediente de uma sexta-feira, avenida movimentada e Pretinho do nada aparece na frente de uma moto. O piloto freou bem em cima do bichano que escapou por pouco. Mas nessa escapadela caiu embaixo de um fusca azulado que vinha na toda em direção contrária. Pretinho levou um trompaço tão grande que por sorte não foi esmagado pelos rodões do fusca 74.

Sorte essa que não permitiu que ele perdesse nem uma das suas vibrissas, embora nessa hora esses pêlos sensoriais não o alertou para o eventual perigo. Até parece que servem somente para enfeitar a sua cara de gato!

Confesso, gritei naquela hora! Caso acontecesse alguma coisa com o bichano eu iria sentir muito. Sou chegada a bichos, cachorros principalmente, gatos nem tanto, soltam pêlos e mijam em qualquer lugar. Mas meu apego com Pretinho vem de longe, desde que mudei pra essa rua. Olhos claros me encanta!

Eu, ele e a noite, madrugadas a fio, acordados.
Eu, trabalhando um pouco, fazendo pesquisas, arrumando papéis e Pretinho desfilando todo faceiro pela rua silenciosa em busca de novas aventuras. Acho que somos mesmos cúmplices da noite! Ela nos entende e nos embala com seus braços aconchegantes. Braços de mãe que cuida do filho com todo cuidado e carinho.

E é bem assim que também agimos quando apaixonados estamos. Queremos colocar no colo, ninar e acarinhar o amor verdadeiro.

Eu, ele, ela. Um triângulo amoroso com final feliz!


Lu Santos